Observatório da
Emigração - Podíamos começar por saber como é que o estudo da emigração
portuguesa chegou à sua vida...
Eu cheguei à emigração quando fiz pesquisa sobre as festas do Espírito Santo (ou Impérios) dos Açores, que comecei em 1981/1982 e continuei entre 1987 e 1989. A pesquisa incidiu sobretudo na ilha de Santa Maria, mas realizei depois estadias de seis meses em São Jorge e no Pico, e percorri de forma mais breve as restantes ilhas. Na sua grande maioria as festas eram promovidas por emigrantes açorianos que estavam nos Estados Unidos ou no Canadá e que vinham aos Açores pagar promessas elas próprias relacionadas com a emigração. A promessa tipo que eu encontrava era: "se eu for para a América ou para o Canadá e tenha sorte, prometo uma festa ao Espírito Santo". No primeiro ano a que assisti às festas, todas elas - e eram cinco - eram organizadas por emigrantes. Isto em 1981: cinco emigrantes, cinco Impérios. No ano seguinte, dois emigrantes, dois Impérios. Em 1987, também, a maioria das festas em Santa Maria a que assisti era promovida por emigrantes. Tive também acesso a documentação escrita sobre as festas nas décadas de 1960, 1970 e 1980 e 70% dos Impérios eram feitos por emigrantes. Tratava-se de promessas relacionadas com a emigração, que eram cumpridas passados sete, oito, nove anos depois da partida para a América (ou para o Canadá). A prioridade de muitos destes emigrantes era comprar um carro, porque sem carro é muito difícil organizar a vida lá; depois era, geralmente, comprar uma casa própria; e o cumprimento da promessa surgia como terceira grande prioridade.
Curiosamente, no caso de Santa Maria, o facto de serem sobretudo emigrantes a realizar as festas teve algum impacto, mas não tão grande como seria de esperar: os emigrantes voltavam para fazer a festa mas queriam fazer tudo como era da tradição. E como os especialistas rituais eram pessoas que tinham ficado na freguesia, de alguma forma eles vigiavam esse cumprimento da tradição. Mas houve inovações no tocante, por exemplo, aos altares do Espírito Santo. Durante a festa, o imperador - a pessoa que está à frente da festa - instala a coroa do Espírito Santo em sua casa durante duas a três semanas. Tradicionalmente este altar era decorado com flores da época, castiçais, etc. Mas os emigrantes passaram a trazer consigo uma série de decorações de Natal compradas nos EUA e no Canadá e essas decorações passaram a integrar a maneira como eram compostos os altares. Também muitas ofertas ao imperador, em vez de serem feitas em géneros ou em alimentos, como era tradicional, passaram a ser em dólares (60 ou 70 dólares). No plano da organização da festa deu-se um encurtamento do seu período de realização: de sete ou oito semanas para duas ou três semanas, isto porque os emigrantes tinham que aproveitar as férias, que na América são mais reduzidas. Simultaneamente as festas passaram a ter lugar em qualquer altura entre o Domingo de Pentecostes e o final do Verão, quando dantes se concentravam exclusivamente nos domingos de Pentecostes e da Trindade.
Eu nessa altura não trabalhava com o conceito de transnacionalidade, que só foi proposto por Nina Glick Schiller no início dos anos 1990, mas os Impérios eram uma afirmação de transnacionalidade: os emigrantes estavam fora, mas continuavam a pertencer à freguesia. O próprio Império, que exige um grupo de ajudantes muito grande - entre 20 a 30 - fazia com que se juntassem nos Açores os irmãos e outros familiares do imperador emigrados no Canadá, nos Estados Unidos. E, muitas vezes, tirando partido desse ajuntamento de parentes, aproveitava-se a ocasião para realizar também casamentos, etc. Os gastos envolvidos nos Impérios também subiram, houve uma certa tendência para usar as festas como instrumento de afirmação do prestígio dos emigrantes. Mas, comparativamente a outros contextos portugueses, acho que em Santa Maria as modificações não foram muitas porque a ideia dos emigrantes era a de fazer tudo como mandava a tradição. Fora de Santa Maria, entretanto, por exemplo nas ilhas do grupo central houve mais mudanças, a partir sobretudo da importação de inovações rituais que haviam sido introduzidas pelos emigrantes nos EUA: por exemplo as queens, raparigas vestidas de branco com vestidos caríssimos, com diademas, etc., que passaram a integrar os cortejos das festas. Em muitas ilhas do grupo central, com uma emigração muito forte para a Califórnia, estas queens generalizaram-se.
OEm - Pode explicar melhor o fenómeno das queens?
O fenómeno de associar raparigas aos cortejos das festas já existia nos Açores, mas as queens são algo tipicamente americano, e são, nessa medida, uma inovação trazida pela emigração para as festas dos Açores. Porque ao mesmo tempo que os emigrantes vinham fazer as festas cá, iam recriando as festas lá. Mas as festas lá sofreram um conjunto de modificações relacionadas com a influência da cultura norte-americana e uma das mais importantes, a mais visível, é essa da introdução das queens nos cortejos das festas. Mas há outras. Aquilo que nas festas dos Açores é uma procissão, nos Estados Unidos transforma-se numa parade étnica.
OEm - Deu continuidade a esse seu interesse pela emigração a partir de quando?
Depois dediquei-me a outras áreas de pesquisa e só voltei aos emigrantes, sempre açorianos, mais tarde, a partir de 2000.
OEm - E foi aí que depois partiu para o Brasil e para os Estados Unidos?
De alguma forma eu sempre fiquei com o fascínio de ver o lado de lá das coisas. Em Santa Maria o meu trabalho foi muito com emigrantes e eu ficava com as moradas, correspondia-me com eles através de cartões de Boas Festas e fiquei sempre com uma certa curiosidade de saber o que é que se passava no lado de lá, tanto mais que eu sabia que havia festas que estavam a ser recriadas nos Estados Unidos e no Canadá à moda de Santa Maria. E sabia que, para além desses casos, havia muitas outras festas do Espírito Santo que estavam a ser recriadas por emigrantes de São Miguel, no caso da costa Leste [EUA] e do Canadá, ou do grupo central, no caso da Califórnia. E foi a partir desse interesse que estruturei um projecto, que arrancou em 2000, que procurava saber como era trabalhada, pensada e transformada a identidade açoriana no contexto da emigração, ou seja, como é que as pessoas se relacionavam com a terra de origem, se viam como açorianas e o que é que ser açoriano no contexto da emigração significava.
A minha ideia inicial era desenvolver essa pesquisa na Nova Inglaterra, nos estados de Massachusetts e Rhode Island, que são os estados onde, na costa Leste, é mais forte a imigração portuguesa, que é de resto uma imigração esmagadoramente açoriana - 90% dos imigrantes portugueses são açorianos. E a minha ideia era trabalhar com associações, com clubes, com activistas, com algumas lideranças, e com esse objectivo fui assistir, já numa perspectiva de estabelecer contactos tendo em vista o trabalho de campo, ao IV Congresso das Comunidades Açorianas, que se realizou em 1995 e reuniu gente da diáspora açoriana em todo o mundo. Desde a autonomia dos Açores em 1976, um dos aspectos muito fortes da política do governo regional, durante muito tempo presidido por Mota Amaral, foi justamente esta ideia da diáspora açoriana. E havia - e continua a haver - um trabalho muito efectivo com a diáspora açoriana, em termos de apoios, presença, deslocações de políticos lá, etc.
Bom, como disse, eu ia assistir ao Congresso na perspectiva de estabelecer contactos na Nova Inglaterra. Mas chego lá e deparo-me não apenas com gente da Nova Inglaterra, da Califórnia, do Canadá, como esperava, mas também com um grupo bastante grande de brasileiros. A emigração açoriana para o Brasil terminou nos anos 1950 e já nessa altura era residual. Até aí, nada de surpreendente. Mas, mais interessante do que isso, as delegações brasileiras mais numerosas eram do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, onde a emigração açoriana tinha acontecido em 1750. Nesse período havia um conflito entre as coroas portuguesa e espanhola pela posse do sul do Brasil e houve uma emigração organizada pela coroa portuguesa com o objectivo de, por um lado, resolver a crise provocada pela sobrepopulação dos Açores e, por outro lado, ocupar de forma mais efectiva essa área que era disputada entre a coroa portuguesa e a espanhola. Organizou-se uma grande operação de colonização que leva seis mil açorianos, primeiro para Nossa Senhora do Desterro (hoje em dia Florianópolis), na ilha de Santa Catarina, e depois, a partir de Florianópolis. para o litoral de Santa Catarina e para o Rio Grande do Sul. Só que isto ocorreu em 1750 - há mais de duzentos e cinquenta anos! - e não teve sequência. Mas de repente estavam ali no congresso pessoas brasileiras, quanto muito com uma longínqua ascendência açoriana de nona geração, mas que apesar disso se sentiam tão açorianas quanto os emigrantes recentes para os EUA e o Canadá. Eu fiquei fascinado por esse processo de redescoberta da origem açoriana no sul do Brasil, sobretudo em Santa Catarina, onde o movimento açorianista era mais activo e concebi logo aí um alargamento do projecto: de uma pesquisa que tinha a ver só com Nova Inglaterra e com uma emigração mais usual para uma pesquisa que envolvesse também esta emigração mais heterodoxa, uma vez que ocorreu há mais de duzentos e cinquenta anos e embora não se possa tecnicamente falar de emigrantes, as pessoas afirmavam-se de qualquer modo como parte da diáspora açoriana e tão ou mais interessados na açorianidade que os emigrantes de fresca data da Nova Inglaterra.
Foi então que eu concebi a possibilidade de fazer um projecto comparativo sobre a maneira como eram tematizadas essas origens açorianas nos dois contextos, em que um dos contextos era mais clássico, digamos assim, e outro era menos usual. Comecei a realizar esse projecto a partir de 2000. Tratou-se de um projecto financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela FLAD [Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento] cujo título era Açores, Estados Unidos e Brasil: Processos de Transnacionalização da Açorianidade.
OEm - Como é que correu o projecto no Brasil?
As pessoas que eu tinha encontrado no Congresso das Comunidades Açorianas eram professores universitários, professores do ensino secundário, vereadores de autarquias - prefeituras, como eles dizem - e a minha ideia inicial era que o movimento açorianista lá era uma coisa assim de elites. Quando cheguei lá em 2000, percebi entretanto que o movimento, que tinha de facto começado nas elites, tinha-se entretanto espalhado rapidamente para as populações. A primeira vez que tive essa noção foi quando estava a falar com um taxista a propósito de um crime que tinha sido cometido em Florianópolis, que, segundo ele dizia, teria sido cometido por pessoas de fora. E então eu perguntei-lhe: " O senhor é de cá?". E ele respondeu "sim, sou açoriano". E eu comecei a perceber que essa ideia de ser açoriano estava a generalizar-se, sobretudo na ilha de Santa Catarina (em Florianópolis e noutras localidades da ilha), mas igualmente noutros municípios do litoral de colonização açoriana. O açorianismo estava de facto a ter uma repercussão extremamente importante ao nível das populações tanto mais que se tinha tornado parte integrante das políticas culturais dos municípios, da difusão e da propaganda turística. Em Santa Catarina o turismo é muito importante, mas baseava-se sobretudo no sun, sea and sand. Com a ideia dos Açores, passa a ser incluída uma dimensão cultural no turismo que irá ajudar essa ideia da açorianidade
OEm - Porque é que acha que isso acontece?
Isto é um processo que vem de trás, de 1948, que se inicia nas elites de Florianópolis e se insere nessa altura numa competição entre as elites de origem açoriana e de origem alemã no estado de Santa Catarina. Para entender esse processo é importante ter uma ideia da ocupação humana de Santa Catarina. Santa Catarina, claro, antes da chegada dos açorianos, tinha uma população indígena, da qual resta muito pouco. Uma parte ter-se-á misturado com os colonos açorianos, outra parte foi vítima das doenças espalhadas pelos colonos açorianos e, no decurso do século XVIII e XIX, foi ainda vítima de expedições destinadas a limpar áreas que seriam posteriormente ocupadas por colonos. Houve depois, a partir de 1750, a população de origem açoriana. Entretanto, no século XIX começaram a chegar imigrantes de várias origens, mas predominantemente da Alemanha, no norte do estado de Santa Catarina e de Itália, no sul. E a redescoberta das origens por parte das elites açorianas começa quando as elites sobretudo de origem alemã chegam ao poder económico e político e pode ser vista como uma reacção das elites mais tradicionais a essas novas elites. O processo inicia-se por volta dos anos 1940-50, depois conhece um declínio que coincide com a ditadura militar nos anos 1960-70 e renasce nos anos 1980-90 com uma nova geração de gente mais dinâmica do que as elites tradicionais e sobretudo mais disposta a construir um diálogo com as populações. E é muito por causa desta vontade de chegar às populações que o movimento açorianista tem uma expressão tão importante e tão popular, de tal maneira que irá ser inclusivamente utilizado nas lutas políticas pelo governo do estado e pela prefeitura de Florianópolis. Na actualidade, o movimento continua a ter essa componente de guerra cultural inter-étnica. Mas está também muito ligado ao facto de Santa Catarina se ter transformado num destino muito importante da imigração que vem do Rio Grande do Sul e que vem ocupar lugares importantes no mercado de trabalho em Florianópolis. Nesse sentido, o contexto do triunfo do movimento açorianista tem muito a ver com esta natureza multi-étnica do estado de Santa Catarina e com conflitos inter-étnicos, inicialmente conduzidos por elites, mas que depois se alargam para baixo.
OEm - Já referiu algumas, mas sintetizando algumas das características entre a emigração açoriana para os Estados Unidos e para o Brasil, quais é que são as diferenças e as semelhanças?
São muito diferentes. A emigração para o Brasil, em particular para Santa Catarina e Rio Grande do Sul, era planificada pelo estado português, havia terra atribuída aos colonizadores pela coroa e tinha portanto tem uma feição agrícola extremamente forte. O que vai acontecer em Santa Catarina é que após um período de experimentação inicial, os colonos açorianos vão chegar à conclusão de que alguns dos produtos e técnicas que levavam dos Açores não eram adequados aos solos e ao clima local e vão sobretudo virar-se para a pesca. Este um primeiro aspecto. Segundo aspecto: é uma migração, ligada a um processo de colonização, que ocorre num período muito limitado de tempo. É uma imigração de cinco ou seis anos e depois desaparece qualquer contacto com a terra de origem. Antes do movimento açorianista começar, as pessoas não diziam que eram de origem açoriana! Os trisavós ou tetravós teriam vindo do outro lado do oceano, mas esse outro lado não era necessariamente referenciado a Portugal ou aos Açores. O tempo passou, as pessoas ficaram brasileiras e mesmo que tivessem objectivamente origem açoriana, desconheciam isso e só recentemente recuperam essa consciência
OEm - E não houve mais emigração portuguesa para lá...?
Não houve mais emigração portuguesa para lá.
OEm - Até hoje?
Há uns quantos emigrantes portugueses que vêm de São Paulo ou do Rio, mas trata-se de uma minoria.
OEm - E para os Estados Unidos, qual é/era o perfil?
Para os Estados Unidos é uma emigração mais tardia. Há duas grandes fases: 1870-1930 e depois 1960-80. Inicialmente é uma emigração que tem que ver com a importância da caça à baleia no século XIX e com a maneira como os baleeiros norte-americanos faziam escala nos Açores, onde muitas vezes recrutavam tripulações. Mesmo quando não recrutavam tripulações, muitos açorianos viajavam clandestinos nos barcos. Depois, a partir disso vão surgir duas comunidades diferenciadas: uma na Califórnia e outra na Nova Inglaterra, inicialmente em cidades portuárias, sobretudo, no caso da Nova Inglaterra, particularmente em New Bedford, que era a capital da baleia nos Estados Unidos, mas também em Boston e em Providence. Para a Califórnia iam sobretudo pessoas do grupo central - Terceira, Pico, Faial, São Jorge, Graciosa - e para a Nova Inglaterra ia sobretudo gente de São Miguel, a ilha mais importante dos Açores, embora haja também imigrantes de Santa Maria e de outras ilhas. Quando a caça à baleia entra em declínio, na Califórnia os açorianos passam a dedicar-se sobretudo à agricultura, compram farms e dedicam-se à criação de gado leiteiro. Mas rapidamente vão aparecer empresários de sucesso, agricultores que conseguem juntar bastante terra, que têm muitas vacas... O fornecimento de leite a importantes cidades da Califórnia passa a estar em parte na mão dos açorianos. Quanto à Nova Inglaterra aí os açorianos passam para as fábricas de fiação, para a indústria têxtil, que era muito importante no sudeste de Massachusetts e em Rhode Island, juntando-se a uma mão-de-obra irlandesa, italiana.
Com a Grande Depressão em 1930, entretanto, a emigração é interrompida. E depois retoma em 1960 e vai para os mesmos sítios. Apesar de tudo tinham-se mantido algumas ligações familiares, e, em consequência, os emigrantes do grupo central vão continuar a ir para a Califórnia, e os de São Miguel e de outras ilhas vão para a Nova Inglaterra. Também no final dos anos 1950 vão começar a partir emigrantes para o Canadá, sobretudo de São Miguel, mas também de outras ilhas. Aí, os açorianos vão inicialmente trabalhar na construção dos caminhos-de-ferro e nas quintas do interior. Mas rapidamente vão para as cidades, quando têm oportunidade, para as fábricas, para serviços pouco qualificados. Mas no Canadá há uma diferença importante, é uma migração onde há mais continentais. Normalmente nos Estados Unidos, se descontarmos Nova Jérsia, que é um caso à parte, fala-se de 90% de imigração açoriana no conjunto da imigração portuguesa. Não são números seguros, mas são os números habitualmente admitidos. E, de facto, é esmagador o peso dos açorianos. Na Nova Inglaterra há pequenos núcleos de continentais, mas provenientes deste ou daquele concelho que tem uma tradição histórica de emigração para os Estados Unidos, como Figueira da Foz, Penalva do Castelo, etc. Mas são grupos muito pequenos, a esmagadora maioria é açoriana. No Canadá a proporção que é dada geralmente é de 75% de açorianos para 25% de continentais. A diferença não é muita, só que é importante, sobretudo porque o sector continental da imigração no Canadá tem mais gente com formação, com o antigo 7º ano, retornados das ex-colónias que eram profissionais de comunicação social, etc. Não quer dizer que o sector açoriano não seja o mais importante, mas não está tão esmagadoramente presente como nos EUA.
Mas voltando à Nova Inglaterra: a partir dos anos 1980 há a crise do têxtil, a deslocalização das empresas e os açorianos passam, sobretudo, para o os serviços, comércio, etc. Por exemplo, no estado de Massachusetts há uma cadeia de cafés, a Dunkin Donuts e em grande parte deles entramos lá e podemos ouvir falar português com forte sotaque micaelense. Também há muitos açorianos que passaram para os serviços pouco qualificados: contínuos em escolas, empregados de limpeza nos hospitais. E depois há processos de mobilidade social ascendente na 2ª geração e na 3ª geração. Deve ser entretanto dito que, tanto nos EUA como no Canadá, a relação dos açorianos com a escola é ainda complicada. Há uma taxa de drop out elevada, embora mais recentemente a situação tenha vindo a melhorar.
OEm - E isso deve-se a algum factor em particular?
Sobre a Nova Inglaterra não tenho uma opinião muito estabelecida porque é um tema sobre o qual recolhi pouca informação. Mas no caso de Toronto, a maior parte dos açorianos foram para empregos pouco qualificados: fábricas, mas quando as fábricas entraram em declínio, construção civil... As mulheres também têm empregos pouco qualificados, como empregadas de limpeza, empregadas domésticas. Neste quadro socioprofissional um bocado precário desenvolvem-se estratégias familiares que valorizam a inserção rápida no mercado de trabalho. A tendência é para o abandono escolar, sobretudo no caso dos rapazes. Os pais têm também um capital cultural baixo, o que faz com que os miúdos tenham poucos incentivos para continuar. Mesmo quando há programas multiculturais têm dificuldades em apanhar a segunda geração.
OEm - E a segunda geração está bem integrada?
Sente-se - e é - norte-americana ou canadiana, na sua esmagadora maioria. Por parte do poder político em Portugal existe muito a ideia que a segunda geração continua a ser portuguesa e existe um conjunto de acções orientadas nessa direcção. E há certamente pessoas da 2ª geração que mantêm uma ligação forte com Portugal, embora no caso da Nova Inglaterra se trate sobretudo de jovens cujos pais são do continente.
Há uma diferença muito grande entre a emigração continental e a açoriana: ao contrário da continental, onde há sempre uma ideia de retorno, a emigração açoriana é uma emigração que vai para ficar. E, portanto, os laços com a terra de origem não são tão importantes e a transnacionalidade não é tão importante como nos continentais. Nas escolas de língua portuguesa das associações o que é que encontramos? Uma proporção entre alunos continentais e alunos açorianos que inverte o que se passa cá fora. Isto é, se em termos gerais há 10% de emigrantes continentais e 90% de emigrantes açorianos, nas escolas portuguesas há 90% ou mais de filhos de emigrantes continentais e apenas 10% ou menos de origem açoriana. São portanto muitos os filhos de emigrantes continentais que mantêm alguma ligação com cultura da terra de origem. Os filhos de açorianos mantêm alguma actividade étnica, vão às festas açorianas, mas nas associações e nas irmandades do Espírito Santo, quem está à frente é a 1ª geração e do que se fala é das dificuldades em passar o testemunho. O que não quer dizer que não continue a haver uma certa capacidade da comunidade açoriano-americana funcionar como o contexto preferencial de sociabilidade para a segunda geração. Mas quando aparecem 1,5 milhões de pessoas nos EUA que nos censos reconhecem a sua origem portuguesa, não há que extrair conclusões precipitadas. Muitas são pessoas de 3ª, 4ª e 5ª geração. Até podem ter um interesse pelos Açores, mas basicamente são americanos.
OEm - Qual é a idade mais comum para a saída, para os Estados Unidos e para o Brasil? Não sei se apanhou isso na sua pesquisa...
Para o Brasil não tenho dados, tenho dúvidas que existam... No caso dos açorianos, foram sobretudo pessoas jovens, entre os 20-30 anos. Mas podem ter emigrado também pessoas com 40 anos. E há depois a reunificação familiar. As pessoas que eu apanhei nos Açores a fazer festas do Espírito Santo e que apanhei lá nas Irmandades do Espírito Santo, nos clubes, são pessoas que têm hoje 50, 60, 70 anos.
Mas voltando ao tema das relações entre os emigrante açorianos e a terra de origem, eu trabalhei com o conceito de transnacionalidade e com a ideia de que as pessoas mantinham uma ligação mais efectiva com a terra de origem. E a conclusão a que cheguei é que de facto a transnacionalidade não tem o peso que à partida eu julgava que ela tinha. Ao nível das associações, pode haver alguma ligação ao governo regional dos Açores, mas a maioria das associações funcionam por referência à comunidade étnica e vivem em função desta nova realidade. Ao nível pessoal é variável. Há pessoas que vêm com alguma frequência aos Açores, mas a maior parte das pessoas tem uma relação muito espaçada com os Açores. Há emigrantes que estiveram 20 anos sem voltar e, como foi uma emigração em cadeia, não têm parentes nos Açores e portanto também já não têm onde ficar. Os continentais têm uma ligação mais efectiva com a terra de origem, as associações têm mais apoio das câmaras municipais. De resto, tive oportunidade de desenvolver muitas destas ideias no livro Açores, Estados Unidos, Brasil: Imigração e Etnicidade, editado em Português pela Direcção Regional das Comunidades (Açores) e que vai ser publicado pela Universidade de Massachusetts em Dartmouth em versão inglesa. Foi depois de concluída esta pesquisa que resolvi estender a investigação para Toronto, Canadá.
OEm - Em que ano?
2008. Trabalhei com a ajuda de uma colega minha - a Ilda Januário - no âmbito do projecto Festas do Espírito Santo na América do Norte: Ritual, Etnicidade, Transnacionalismo. Trabalhámos sobretudo sobre as festas de Espírito Santo em Toronto. Agora a ideia é fazer um prolongamento da pesquisa para Montreal e para a Colômbia Britânica.
OEm - E as Festas de Espírito Santo têm alguma expressão em Santa Catarina?
Têm. Não lhe sei dizer o número de cor, mas existem certamente dezenas e dezenas de festas do Espírito Santo. Não são festas do Espírito Santo, são festas do Divino, como são localmente chamadas. Se alguns motivos são similares aos Açores, é evidente que houve uma readaptação àquele novo contexto ecológico, cultural e social e as festas depois ganharam o seu próprio dinamismo e, portanto, são muito diferentes das dos Açores, de resto tal como acontece nos Estados Unidos e no Canadá.
Nos Estados Unidos estamos a falar de 90 festas do Espírito Santo na Califórnia e de 60-70 na Nova Inglaterra. Em Toronto e no estado do Ontário, estamos a falar de cerca de 50-60 festas, em Montreal talvez 10 e na Colômbia Britânica 10. Mas depois há festas mais soltas em Winnipeg, em Kitimat... As festas do Espírito Santo são, de facto, e é a minha conclusão nesta pesquisa, o principal marcador étnico da identidade açoriana. Não só pelas festas em si, que são de qualquer modo muito importante. Mas, além disso, para organizar as festas é preciso que existam irmandades ou clubes, usualmente com edifícios próprios, que, na maior parte dos casos, são utilizados todo o ano. É aí que se realizam jantares promovidos pela própria Irmandade ou pelo clube: muitos desses clubes têm um bar com televisão e são ainda muito utilizados para eventos de membros da comunidade como baptizados, casamentos, baby showers... É em torno dessas sociedades e desses clubes que gira a sociabilidade étnica dos açorianos.
OEm - E passa-se o mesmo em Santa Catarina, ou os clubes têm outra dinâmica?
Não. No caso dos Estados Unidos e de Toronto, esta ideia de ser açoriano é muito organizada a partir de baixo, um bocado de acordo com a cultura norte-americana de auto-organização da sociedade civil. Em Santa Catarina, este movimento global de redescoberta das raízes açorianas é muito mais conduzido a partir de organismos apoiados no estado. Isto é, são pessoas que estão nas universidades, professores do ensino secundário, prefeituras que estão à frente do movimento. Outra diferença importante é que no Brasil esta redescoberta das raízes açorianas está mais ou menos adquirida, normalizou-se e vai continuar. Nos Estados Unidos e em Toronto estamos numa fase de transição, em que é difícil antecipar o que vai acontecer. E nos Estados Unidos a situação é diferente do Canadá. No Canadá eu trabalhei com várias festas do Espírito Santo, umas organizadas no quadro das igrejas portuguesas, outras organizadas por clubes, e o público era muito envelhecido. Nos Estados Unidos, apesar de tudo, há maior participação de gerações mais novas, pessoas de 40 anos, e para além das queens, a 2ª geração participa nas festas. Embora nos dois casos o objectivo seja o mesmo - atrair a 2ª geração - nos Estados Unidos a 2ª geração vai mais e no Canadá vai menos. Quer dizer, aparecem alguns rapazes e raparigas - porque as queens vão ser coroadas, etc. - mas cumpridas essas funções vão-se divertir para outro lugar. Claro que sabemos que alguns vão voltar. Em Toronto, havia uma Irmandade que tinha à frente pessoas novas, de 30-40 anos, que foram para o Canadá com dois anos e que se interessaram pelas coisas açorianas. Mas não sei o que o futuro reserva. Não há sinais de festas a desaparecerem, pelo contrário; com a chegada dos emigrantes à reforma, há muito mais disponibilidade para as organizar. Mas o diálogo com a 2ª geração no Canadá parece-me mais complicado. Na Nova Inglaterra não é tão complicado. E pelo que eu tenho lido, na Califórnia esse diálogo faz-se muito pelas queens. Por outro lado, na Califórnia, em certas pequenas cidades algumas festas foram já incorporadas nos hábitos locais. E na Nova Inglaterra também há coisas engraçadas: em pequenas cidades onde havia festas e deixaram de se realizar, agora estão a ser recuperadas por pessoas de 3ª, 4ª e 5ª geração. Há também alguma capacidade de, em sítios onde a emigração açoriana foi muito importante, as festas serem integradas no património local. Em Toronto, muitas destas festas continuam a organizar-se em paróquias portuguesas, na área que era de maior concentração portuguesa. Mas essa área está em declínio, as pessoas querem ir para os subúrbios até porque isso acompanha o seu processo de ascensão social.
OEm - Os subúrbios significam ascensão social?
Sim, porque os subúrbios nos Estados Unidos e no Canadá significam casas novas, mais espaçosas, que dão mais estatuto. E no caso de Toronto, à medida que essa população do centro for saindo, a tendência será para algumas dessas festas de igreja - eu estou a falar num cenário daqui a 10-20 anos - terem alguma dificuldade em sobreviver. Haverá um teste rapidamente em relação a essa tendência, uma vez que há uma paróquia portuguesa perto do centro de Toronto, num sítio onde já há poucos portugueses, que definiu uma política de abertura para outras minoras étnicas e para outros habitantes da área, e vamos ver o que acontece à festa. De qualquer forma, quando estive lá assisti a uma procissão do Senhor do Santo Cristo, que me tinham dito que era a maior procissão açoriana de Toronto e o número de pessoas que estava a assistir era baixo, comparativamente, por exemplo, à assistência às grandes festas do Espírito Santo de Fall River, onde a parade, à qual assistem dezenas de milhares de pessoas, demora muito tempo a passar...
OEm - Qual é que é a diferença entre parade e procissão?
A procissão é religiosa. No caso do Espírito Santo, a procissão está organizada em torno da Coroa. Quanto à parade, surge nos Estados Unidos no século XIX, inspirada certamente em tradições europeias de cortejos, mas muito ligada à representação dos grupos profissionais na cidade norte-americana, com carros alegóricos, uma espécie de procissão mais laica, com associações profissionais que se faziam representar em blocos no quadro de um desfile. Esse modelo é depois apropriado para efeitos étnicos nos finais do século XIX. A grande parade era, e ainda hoje é, a do St. Patricks Day, com a lógica do desfile do grupo étnico, com as diferentes associações e clubes a marcharem separadamente, as direcções dos clubes em fato de cerimónia, bandeiras - do país de origem e do país de acolhimento. É uma afirmação de duplo patriotismo: para com o país de origem mas também para com os EUA. É essa lógica que triunfa também no Espírito Santo e é assim que surgem as queens e outros elementos que fazem a passagem da lógica da procissão para a lógica da parade. Na parade são obrigatórias as bandeiras dos Estados Unidos, de Portugal, dos Açores. Há depois as coroas, podem aparecer os pães à cabeça, aparecem as queens, os representantes do poder político local, não só os luso-americanos mas também os norte-americanos, que dependem do eleitorado português. Há portanto uma lógica étnica.
OEm - E isso é a forma de se posicionarem perante os Açores, em termos identitários?
É a forma de se afirmarem como luso-americanos, Portuguese-American, açoriano-americanos. Esta última, embora não seja uma expressão maioritária, pareceu-me a melhor forma de falar dessas identidades híbridas. O que é importante é perceber que os luso-americanos e os luso-canadianos de origem açoriana constituem um grupo étnico articulado com formas específicas de sociabilidade, com marcadores étnicos visíveis importantes como as festas, as actividades organizadas pelos clubes... Eu escrevi sobre as festas, mas também sobre o conjunto de outras actividades que os clubes organizam, que têm muito a ver com a terra da origem, mas já misturada com aspectos e elementos que têm a ver com a vida lá. É lá que eles vivem.
OEm - A emigração para os Estados Unidos não está activa neste momento, depreendo do que disse...
A emigração açoriana parou nos anos 1980 e não vejo como possa reabrir. Por um lado, a população dos Açores mantém-se estacionária. Por outro lado, des-ruralizou-se, ou está em vias disso. Não há facilidades de emigração para os Estados Unidos e para o Canadá. Portanto, tanto quanto a vista alcança, creio que a emigração açoriana acabou. Embora continue - por exemplo nas classes médias - para o continente onde os açorianos mantêm uma consciência regionalista muito forte, com Casas dos Açores em Lisboa, no Algarve, no Porto, também com festas do Espírito Santo.
OEm - Eu vi que no seu livro escolhe a palavra "imigração", portanto escolheu posicionar-se a partir de lá....
Foi uma coisa sobre a qual hesitei, mas o meu ponto de vista não é a do emigrante, é a do imigrante. Tanto mais que, como eu digo, essas relações com a terra de origem estão hoje mescladas com a pertença à América, porque é lá que as pessoas efectivamente estão.
OEm - Agora podia falar-nos um pouco do seu projecto actual...
A ideia é fazer o levantamento sistemático das festas do Espírito Santo na Nova Inglaterra e no Canadá. Não na Califórnia, porque aí já existe um excelente livro - organizado por Tony Goulart - sobre o tema e as festas foram já objecto de um levantamento relativamente exaustivo.
OEm - E o projecto tem mais investigadores?
É uma equipa mas, por razões de demora no financiamento, só tem estado activa a parte do Canadá. O levantamento em Toronto já foi realizado e a ideia, à medida que os financiamentos surgirem, é estender a pesquisa para Montreal e para a Colômbia Britânica no caso do Canadá e voltar de forma mais detalhada à Nova Inglaterra no caso dos Estados Unidos. A ideia é ter informação básica mínima sobre todas as festas e depois fazer três ou quatro case studies por cada grande área.
OEm - Do que me é dado a ver, há poucos antropólogos a trabalhar sobre a emigração portuguesa e os seus diversos contextos, por comparação com a sociologia ou outras áreas. Não sei se também sente isso...
Sim. Mas o problema das ciências sociais com a emigração é um problema antigo. Porque os estudos sobre a emigração que surgem no período auge da emigração portuguesa nos anos 1960-70 não são muitos. Há estudos macro como os de António Barreto ou Joel Serrão. Há a pesquisa muito importante de Beatriz Rocha-Trindade, que foi em muitos sentidos uma pioneira, cruzou metodologias sociológicas e antropológicas, propôs o importante conceito de "comunidade dipolar" que é uma espécie de transnacionalismo avant la lettre. Há também o trabalho de Maria Ioannis Baganha, recentemente falecida. Continuaram depois a ser publicados outros estudos, por exemplo sobre as casas de emigrantes - as "casas de sonho" - mas as pesquisas a meu ver ficaram sempre aquém da importância do fenómeno migratório. E na antropologia foi idêntico. No caso português, as única autoras que eu me lembre que tenham trabalhado mais especificamente sobre emigração foram Colette Callier-Boisvert, Caroline Bretell e pouco mais...
OEm - Que trabalham cá...
Sim, trabalham a partir de cá. Mas em geral a antropologia passou um bocado ao lado da emigração, mesmo quando fazia estudos em comunidades de onde se emigrava. Quanto aos estudos sobre comunidades emigrantes nos países de acolhimento, então, eram inexistentes. Mas, como digo, do lado das ciências sociais no seu conjunto, com excepções como as que disse, e outras, nunca houve um interesse muito sustentado... Mas eu penso que a situação está a mudar, porque estão a crescer os estudos sobre emigração conduzidos a partir dos contextos de acolhimento, da autoria de antropólogos e outros cientistas sociais residentes em países onde a emigração portuguesa é forte, e que são em muito casos luso-descendentes. A bibliografia sobre a imigração portuguesa nos Estados Unidos ou no Canadá é já bastante razoável. Por exemplo, no caso do Canadá, existem os trabalhos de Victor Pereira da Rosa, de Carlos Teixeira, de Edite Noivo. Nos Estados Unidos a bibliografia tem vindo também a aumentar, como é possível ver no livro recentemente editado pela UMass Dartmouth, Community, Culture and the Makings of Identity: Portuguese-Americans Along the Eastern Seaboard, que reúne um conjunto de estudos nomeadamente de antropólogos: Bela Feldman-Bianco, Andrea Klimt, Kimberly Holton, Miguel Moniz, Glória Sá, etc. Em França, a bibliografia tem vindo a crescer muito e em antropologia há os trabalhos de Irène dos Santos. No Brasil também têm surgido estudos, por exemplo de Eduardo Caetano da Silva. Para a Alemanha há a pesquisa de Andrea Klimt...
Quanto a Portugal, acho que os antropólogos estão a trabalhar mais sobre imigrantes, não sobre os que partem mas sobre os que chegam. Eu tenho estimulado, entre estudantes de mestrado e doutoramento em antropologia, o desenvolvimento de estudos sobre emigrantes. E tenho tido alguns resultados, embora modestos. Tive recentemente um estudante de mestrado que estudou a imigração portuguesa na Suíça - país para o qual existe também um estudo recente de Laranjo Marques - e que vai seguir para doutoramento.
OEm - Pode dizer quem é?
Eduardo Araújo. Ele fez uma tese sobre emigração portuguesa na Suíça construída a partir de um cantão italiano, onde há uma comunidade mais pequena, mas também esteve em Genebra. Agora tem uma bolsa de doutoramento e poderá continuar.
Isto é: comparativamente aos anos 1960-70, existe hoje um acervo de estudos sobre emigração, entre antropólogos, sociólogos, etc., que, por exemplo, já torna possível a organização de volumes colectivos sobre emigração, No caso do Canadá, saiu agora a 2ª edição de The Portuguese in Canada, no ICS saiu o volume Construção da Nação e Associativismo na Emigração Portuguesa, organizado por Daniel de Melo - que tem trabalhado muito sobre associativismo emigrante - e Eduardo Caetano da Silva
Acho que a situação está mudar.
Mas, apesar disso, em Portugal existe uma certa invisibilidade da emigração relativamente à imigração. Claro que houve um período, que coincide com os anos 1990, em que era correcto afirmar-se que Portugal se tinha transformado num país de imigração, e isso gerou um enorme interesse mediático e junto dos académicos pelo tema da imigração. Mas o que já é claro é que essa conjuntura acabou. Portugal nunca chegou verdadeiramente a transformar-se num país de imigração à semelhança de muitos outros países europeus: tem apenas 6% de imigrantes; há muita imigração que entra por Portugal mas em que Portugal é sobretudo uma plataforma migratória; houve retorno de imigração do Leste. O que é evidente nos últimos é que Portugal voltou a ser, se é que alguma vez deixou de ser, um país de emigração. Só que o lado da emigração remete para uma coisa que nós não gostamos muito de falar, e que tem a ver com a modernidade incompleta do país e o modo como essa modernidade incompleta continua a obrigar as pessoas a emigrar. O crescimento das comunidades emigrantes na Grã-Bretanha e na Suíça é exponencial, há uma forte comunidade portuguesa em Espanha e os números indicam que nós somos o país europeu da Europa dos 15 com taxas de emigração mais fortes. Mas eu acho que ainda há uma certa dificuldade em assumir esse lado "desagradável" da realidade do país. A emigração é vista como o lado "pimba" do país que ninguém - sobretudo os intelectuais e os políticos - quer reconhecer que exista. Sobretudo nesta conjuntura, fazê-lo é como se reconhecêssemos que houve uma aposta na modernidade que se seguiu a adesão à União Europeia que atingiu os seus limites, tendo Portugal voltado a ser um país cujos problemas estruturais a emigração põe em relevo. Nesse sentido, é positivo o aparecimento de uma entidade como o Observatório da Emigração, mas é pouco. O tom geral continua a ser o de uma certa invisibilidade. E essa invisibilidade tem reflexos na produção académica.






